2.5.08

Por um banho queimante e um inverno diferente

Banho apetece no outono - quando a temperatura equivale à estação mais fria do ano, como agora - e no inverno. Enquanto muita gente diz que é horrível ir para o chuveiro nos dias muito frios, eu penso que é aconchegante. Pela manhã é a continuidade do quentinho. Basta sair de baixo daquele monte de cobertas e correr para o banheiro. Tirar o pijama em um minuto, entrar no box e sentir a água escorrer. É como estar em um cubículo, espremida, tentando fazer com que todas as partes do corpo sejam atingidas pelo mundaréo de gotículas d'água.

Mas melhor ainda é chegar da rua, quando faz um frio cortante; ligar o aquecedor para tirar a umidade do ambiente, porque o banheiro costuma ser o recinto mais gelado da casa; despir-se com imensa agilidade, o que às vezes é difícil pela quantidade de roupas vestidas; por a mão embaixo da água corrente, para ver se já esquentou, e, finalmente ter a sensação de estar queimando. Queimando, queimando, queimando. Aí é só entrar com o resto do corpo. Com os pés também acontece. Entra um. Depois, o outro. É como se fervessem. Até que a pele atinge a mesma temperatura da água e a reação, provocada pelo estímulo externo, logo passa.

Vinte minutos mais tarde, em um dia em que os graus não ultrapassam o primeiro número de dois dígitos, vem a pior fase do banho. Movimentar a torneira sabendo que o resultado é o cessar da quente enxurrada... isso é cruel. A partir daí, os atos de se secar e de se vestir devem ser feitos como se a ação de tomar banho fosse o conteúdo de uma fita VHS sendo rebobinada, pois os movimentos são feitas ao inverso. Se antes era preciso tirar o pijama, agora é necessário vestir a roupa. Se antes a torneira era rosqueada para a esquerda, agora é a para a direita. E assim por diante.

Eu começo a ver o inverno por outro ângulo, com um olhar de apreciadora, o que, lhes asseguro, anteriormente eu não tinha. Nem o fato de passar frio, seja na rua ou em casa, tira a ótima sensação de pegar fogo ao começo e ao final do dia. A hora do banho está fazendo eu mudar meus conceitos. E é só o começo de um inverno diferente. Depois vêm as sopinhas, os cafés, os capuccinos, as noites de sono tapada até o nariz, os filmes acomapnhados de panelas de negrinho. Ah, mas cada um desse ítens vale um post a parte.

13.4.08

Um dia e algumas horas no mundo das pessoas chiques

Começou com duas horas de princesa. Aconteceu como um surto. Eu quase nunca tomo decisões rápidas, mas neste dia, nossa, me surpeendi. Cheguei no Studio Hair às 13:30. Desde que moro em Porto Alegre, é lá que eu vou quando preciso fazer as unhas das mãos e dos pés e tirar o buço e a sobrancelha (com cera porque com pinça dói muito mais).
Antes de marcar, passo por uma preparação psicológica. Não é nada fácil abdicar duas horas, de 20 em 20 dias, para passar por isso. É tudo questão de necessidade, não de prazer.
Era quinta-feira e eu ansiava pela sexta depois das 22 horas e pelo sábado o dia todo (porque hoje, domingo, cá estou na Zero Hora). A semana foi pesada no trabalho e eu tive duas entregas enlouquecedoras para a faculdade. Passei de segunda à quinta com um humor dos diabos. Nada estava a meu favor. Talvez porque eu não deixava que estivesse. O pessimismo tomou conta de mim durante quatro dias. Eu estava virada, literalmente. Até que às 13:30 de quinta eu adentrei no salão de beleza.
- Oi, tudo bem? Tenho horário agora.
- Teu nome?
- Carolina Morais (para marcar horário em algum lugar, o Morais facilita a minha vida. Não tenho paciência para soletrar T,A,V,A,N,I,E, dois ÉLES, O. E não ouso dizer que sou Pinto. Então, vai Morais.)
- Pode aguardar, por favor.
- Tá, mas antes me diz quanto custa o corte de cabelo.
- Vinte e seis reais.
-Tem horário agora?
- Agora, assim?
- Sim, agora.
- Tem às 14 horas com o Fabiano.
- Ok, marca para mim.
Sentei no sofá verde limão. Em menos de um minuto, apareceu a pedicure. Mais um quarto de hora, e vieram manicure e depiladora. Eu sentia-me confortável. Essa era meu dia de luxo do mês. Pintei a unha da mão com esmalte ameixa com calda de chocolate. No pé, só base. O cheiro da cera bem abaixo do meu nariz estava agradavél por demais. Rodeada por três mulheres que me davam um trato, eu encarnava uma lady.
Passava das 14:20 quando o cabelereiro me chamou. Enquanto lavava, fizeram aquela massagem maravilhosa na minha cabeça. Duas mãos de shampoo e duas de condicionador. O meu cabelo não precisa mais do que uma de shampoo. Condicionador eu dispenso. Mas, como corto uma vez a cada vários meses, não me atrevi a reclamar. Estava realmente bom. Quando sentei na cadeira de corte, me olhei no espelho. O cabelo molhado, enrolado pela toalha. A cara de lua. Pensei "quero um corte curto, à la loca. Chega de pentear, desembaraçar. Vou sair do banho, sacudir e pronto." Dito e feito.
- Fabiano, eu quero assim: desfia tudo, tira uns seis dedos, corta a franja pro lado.
Através da superfície que reflete luz, ele me fitou.
- Tem certeza? Tu nunca cortou tanto. Vem aqui e tira um ou dois dedos.
- É, mas manda brasa.
Sentimentos concomitantes habitavam o meu ser: apreensão e confiaça.
Apreensão: será que vai ficar bom? E se eu odiar?
Confiança: vai ficar legal. Cabelo cresce.
No decorrer do corte, a gente nunca tem muita noção de como será o visual. O cabelo molhado é muito diferente do seco. Eu rezava, me olhava, me imaginava com o novo look.
O Fabiano tinha pressa. A próxima cliente já estava na recepção.
- Não vai dar tempo de secar.
- Sem problemas, deixa ao natural para eu me adaptar logo.
Acabou. Ele penteou, depois esculhambou com a mão. Mostrou como tinha ficado atrás.
Perfeito.
Surpresa.
Nunca, em 19 anos de vida, cheguei tão radical e saí tão satisfeita do cabelereiro.
E isso me fez muito bem.
Liguei pro pai para contar do novo corte.
Toda emocionada.
Agora penso que foi ridículo e extremamente fútil, mas na hora foi ótimo. Experimentei como é a sensação de ir embora feliz do salão de beleza, chegar em casa e ficar se olhando no espelho de vários ângulos para ver os picados do cabelo. Até o dia seguinte, quando muita gente constatou "cortou o cabelo? Ficou bem bonito", me senti no mundo das pessoas chiques. Agora o encanto passou e eu voltei a ser gata borralheira, mas ainda estou curtindo o estilo.

28.3.08

Eu fico com o caráter

De uns tempos para cá, quase diariamente, penso sobre a preferência em ter homens ou mulheres como colegas de profissão. Talvez porque na editoria do meião da Zero Hora, onde ficam os auxiliares e os fotovixers, o assunto esteja sempre em pauta. Fato curioso: o tema não é levantado só lá, mas em várias rodas de amigos das quais participo.
As opiniões ora se encontram, ora divergem. A maioria das mulheres que conheço culpa os hormônios femininos pelos eventuais arranca-rabos no ambiente de trabalho. Assim, parte delas diz gostar de homens, pois julga ser mais fácil manter uma relação amigável com eles. E uma das causas disso é o fato dessas mesmas mulheres admitirem suas características: capacidade de criar murmurinho por qualquer motivo e transformar um simples episódio em uma catástrofe. Juntas dão risinhos sacanas e, quando algo diferente acontece, trocam olhares que só elas compreendem. Em igual proporção e em uma fração de segundos, conseguem se desentender e criar intriga umas com as outras. Eis o suposto sexo frágil. E tem homem que não gosta de trabalhar ao lado delas justamente por isso. É, dá para entender.
Por outro lado, têm mulheres que elegem outras como as melhores companheiras de serviço, porque as consideram mais eficientes, mais ágeis e mais capazes para enfrentar determinadas situações. Ok. Essa é a teoria da minha mãe, mas eu concordo pelo menos em grau. Aquelas com quem me relaciono se dedicam com afinco as suas atividades.
Homem geralmente adora trabalhar com homem. Eles têm as mesmas tiradas, são brothers camaradas mesmo que se conheçam há um dia. Ficam amigões rapidinho e, claro, só uma intriga criada por - adivinhem quem? - mulheres, é capaz de afrouxar a "velha" parceria. Mas tanta camaradagem também incomoda. Qual a graça sem um atritinho sequer?
Eu não sei dizer o que me agrada, porém tenho uma única certeza: a relação depende do caráter das pessoas e não do conjunto das características corporais que os diferenciam. O último fator pode ser, no máximo, favorável ou não à boa convivência.

23.3.08

Remanifestação de tendências

Eis que um modelito já muito usado começa a reaparecer. Pelo que tenho visto, vai virar moda de novo. Por enquanto, pouca gente a tirou do armário, mas aquelas que já fizeram andam por aí com cara de "eu antecipei a próxima tendência".

Hoje, para a maioria das pessoas, elas são feias e antiquadas, mas até 2005, eram o auge da boniteza. Eu usava, claro. Com o passar do tempo, o estilo caiu em desuso, e a tendência trouxe um novo costume. Aos poucos, eu parei de vestir.

Moda é um negócio estranho. Não me considero ligada ao assunto, pois não leio sobre, não sou consumista e não vou ao shopping para comprar o último modelo de tudo que é roupa, sapato ou bolsa. Para mim a ficha demora a cair. Preciso de tempo para me adaptar às novidades. Primeiro vejo alguém vestindo. Depois passo nas vitrines, dou uma namoradinha. Por último entro, experimento e, se me agradar (o que muitas vezes não acontece), eu compro. Até aí já têm uns seis meses que todo mundo usa. Para alguns nem é mais novidade. Outros, inclusive, já descobriram algo mais "fashion".

Não que eu rejeite a moda. Nem pretendo. Acho legal quem inova, ousa no vestuário e nos acessórios, mas nunca serei a primeira a trajar algo diferente. Eu apenas me visto de acordo com os ambientes os quais freqüeto. Aos poucos, o que é tendência passa a ser usado em todos os lugares. Logo, quando adoto o que está em voga, estou pronta para ir a qualquer local. Bem melhor assim, já que nesse quesito, não faço questão de inaugurar. Me sentiria fora do ninho, com certeza.

E no caso de ressuscitar um estilo, não serei a pioneira. Com as pantalonas, aquelas calças de bocas enormes, vou esperar que os outros se arrisquem. Já esteve na moda quando minha mãe e eu tínhamos 15 anos e agora ela está de volta. No momento eu desaprovo, mas sei que, após relutar, cederei aos tentáculos da nem tão nova tendência. E o pior: a cintura alta também dá sinais de remanifestação.

6.3.08

Vizinhos quase íntimos*

Passar o verão no Menino Deus significa estar acompanhada de muitos cupins. Na minha casa é assim há várias temporadas de calor. E, como é uma característica do bairro, não conheço ninguém de outras adjacências que tenha tamanho contato com os pequenos insetos.

O típico papo de corredor, no qual cada um dos vizinhos fica escorado no marco da porta de sua residência, é suficiente para saber que cupins são próximos não só a mim, mas a eles também. E quando eu já estava certa de que as colônias habitavam apenas o meu prédio, constatei que as demais moradias da região sofrem com a cupinzada. Foi um dia, conversando com um professor, que descobri que morávamos pelos mesmos contornos do Guaíba. Papo vai, papo vem, ele disparou: “Como tem mosquito nessa época lá em casa”. Eu concordei. Ele continuou: “Outra coisa que aparece bastante é cupim”. E logo emendou: “Na tua casa não?” Fiz que sim com um movimento de cabeça e continuamos os devaneios sobre a praga da madeira.

A relação entre mim e os cupins é quase íntima, pois, dentre os cômodos do apartamento, eles têm preferência pelo meu quarto. Basta pôr os pés na porta do recinto que já se vê a festa dos insetos. Divertem-se e se satisfazem ao devorar os armários. Depois de se deliciarem com a celulose, as pequenas asas ficam espalhadas pelo chão, pela cama, pela escrivaninha. E o pozinho da deterioração está por todos os lados. O mais impressionante é que realizam o processo inteiro em apenas um quarto do dia. Nem isso. É o tempo de eu sair de casa às quatro da tarde e voltar às 10 da noite para encontrar a sujeira.

Então, só me resta pegar uma vassoura, um pano úmido e limpar o rastro. Para completar, jatadas de cupinicida na beirada dos móveis resolvem por alguns poucos dias. Logo começa tudo outra vez, como um ciclo. O roer da madeira, as asinhas e o pó esparramados. No final, eu limpo.

Mas fazer o quê? Eu gosto mesmo é de morar aqui onde tem ônibus para os outros cantos da cidade, shopping, farmácia, padaria e parque. Todos bem pertinho, ao meu dispor ou necessidade. Os cupins? Ah, eles nem incomodam tanto.

* Crônica publicada na edição de março do ZH Menino Deus

29.2.08

Juno não é convencional

Gravidez na adolescência é um tema tão batido e insosso o qual, dificilmente, resulta em uma boa obra. Em Juno (direção de Jaison Reitman e roteiro de Diablo Cody), entretanto, é diferente. O filme agrada, cativa e faz pensar por que a jovem de 16 anos, grávida do melhor amigo de escola, encara a situação como um simples fato, mesmo que não seja. Seu jeito despojado, moleque e debochado muda o rumo da história, que se encaminha para uma decisão incomum. Como não se sente preparada para ter um filho, ela opta pelo aborto. Desiste ao descobrir que com mais ou menos dois meses - quando ela procura a clínica - o nenê já tem unhas. Então, Juno decide pela adoção. Mas não nos moldes tradicionais.

A interpretação de Ellen Page no papel de Juno é impecável. Ela transfere credibilidade à história ao encarnar uma garota que usa o humor inteligente para lidar com o ocorrido. Sua maneira inocente, doce e delicada de viver muda tudo de figura. O longa não é nada convecional. E o que o torna ainda mais interessante é não mostrar o sofrimento da adolescente grávida, o que o transformaria em um filme clichê.

Veja o trailer

12.2.08

A decepção após uma vida de dieta

Hoje aconteceu algo horrível. Mais do que vocês imaginam. Como todo trabalhador que recebe menos de um salário mínimo por mês, me obrigo a trazer um lanchinho e uma janta aqui para a Zero Hora. Sou a pobrinha da redação. Chego a trazer uma bolsinha térmica para não estragar o iogurte, o sanduba e algumas guloseimas a mais. Eu não tenho vergonha. Ou até tenho, mas dissimulo direitinho. Enquanto os outros gastam seus salários gordos de jornalistas famosos, eu fico na minha insignificância de assistente de redação (força de expressão...queria ver o que seriam deles sem nós) que precisa guardar um dinheirinho todo mês, já pensando no futuro. Então imaginem, eu, triunfante, adentrando nesta redação com uma bolsinha térmica brega. Imaginem.
Eis que hoje, um dia após retomar a dieta, trouxe a minha refeição light. Gordo, quando está entediado, vai comer. Quando o trabalho não lhe exige muito, ele come. Quando a demanda é grande, ele come, pois está ansioso. E assim é toda a vida do gordo e a minha também. Porém, nos dias em que estou disposta a controlar o peso, trago tudo light aqui pra Zero. É bolinho light, pão light, uma barrinha de cereal ou um iogurte, ambos light. Estou tão acostumada que nem mesmo a notícia de que sacarina (uma espécie de adoçante) pode engordar mais do que açúcar me faz parar de consumí-la. E assim eu fico olhando as horas no computador e cuidando para não deixar passar o momento das minhas refeições. Caso vocês não saibam, gordos em dieta e pessoas que se alimentam corretamente comem de cinco a seis vezes durante um único dia.
Então, resistindo à tentação de devorar as delícias do bar, me preparei para fazer a penúltima alimentação de hoje. Abri minha bolsa, a térmica, peguei a sanduicheira (eu não trago o pão envolto por um saquinho ou por aqueles plásticos próprios para embalar comidas porque seria o triplo da cafonice) e comecei a saborear o pão preparado com uma hora de antecedência em relação ao horário que eu saio de casa para vir para cá. Esse é o tempo suficiente para ele refrigerar e, com ajuda da bolsinha, permancer fresquinho pelas próximas quatro horas. Enquanto mordia, esperava ansiosa para chegar na melhor parte. A do hamburguer de peito de peru. Adivinhem? Light, é claro. E foi aí que aconteceu a parte triste da história. O hamburguer desapareceu. Ou melhor, ele não chegou a habitar as fatias do meu gostoso sanduíche. Sim. imaginem. Eu esqueci o hamburguer prontinho dentro do microondas. Deveras frustrante. Agora, quando eu chegar em casa, ele vai estar lá, duro, ressecado, sem sabor. ainda esperando para ser deglutido. Foi o dia mais triste da minha vida entre um regime e outro. Eu criei A expectativa e ela não sucedeu. Agora imaginem a minha cara de decepção. Fim da história. Fim do dia.